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Fernando Fontoura:
40 anos, ex-instrutor de tênis, autor do livro Configure o Seu Jogo – o tênis além do instinto (1998) e Tênis Para Todos (2003); Coordenador Geral da Fundação Tênis (www.fundacaotenis.org.br) desde 2006 e acadêmico de Filosofia na Faculdade IDC em Porto Alegre.

ESPORTE E CULTURA

Muitas pessoas aceitam a afirmação de que o esporte tem uma função social no sentido de inclusão para crianças e jovens em desajuste na sociedade, seja por questão financeira, de oportunidades educacionais, de segregação pela cor, sexo ou raça, falta de estruturas básicas ou outras. É quase um consenso que estas pessoas ou comunidades têm uma saída quando se envolvem em programas esportivos sociais afirmando que é melhor que estejam envolvidas nessas atividades do que estejam nas ruas ‘vagabundeando’.
Sobre essa afirmação, em um estudo feito por um grupo de pesquisas de projetos sociais em uma comunidade desfavorecida da cidade de Porto Alegre, foi constada, entre outras cosias, que um dos lugares de maior segurança para essas crianças era a rua. Não era a escola, por já serem taxados pelos próprios professores e funcionários como vagabundos e mal-educados; não era em casa, pois muitos não tinham essa referência e os que a tinham era como um lugar onde seu bicho de estimação era, no mínimo, ratos dos bueiros ou lixões ao redor de onde moravam; não era a família, por a grande maioria não ter um padrão familiar de pai e mãe, muitos viviam com outros parentescos ou com pais que não eram os biológicos e por isso sofriam todo tipo de abuso físico e/ou psicológico. A rua era o melhor lugar para eles. Onde encontravam os amigos, jogavam futebol, brincavam e ‘fugiam’ de um contexto nada favorável a eles. Johan Huizinga, professor e historiador neerlandês, em seu livro Homo Ludens – o jogo e a cultura -, faz referência que uma das características formais do jogo, entre as mais importantes é a abstração espacial da ação do curso da vida corrente. “Demarca-se, material ou idealmente, um espaço fechado, separado do ambiente cotidiano. E nesse espaço se desenvolve o jogo e nele valem as regras.” Ele ressalta a importância da separação entre os lugares de jogo e o cotidiano. Envolver, muitas vezes, o programa social dentro do espaço onde a vida cotidiana acontece pode macular o espaço do jogo onde Huizinga o denomina tão sagrado como uma ação sacra. A delimitação da rua é para esses jovens mais sadia do que muitos espaços considerados pela cultura exterior à comunidade (nós!) como espaços de reparação social, afetiva ou cognitiva. Função social do esporte, seja ela qual for, se não levar em conta a característica da comunidade que atua, deixa de ter cunho de inclusão e passa a ser algo vilipendioso para aqueles os quais o programa diz se preocupar.
Outra característica da função social ou cultural do esporte ou jogo (como afirma Huizinga) é que ele não é um braço da cultura nem anda em paralelo a ela, mas é sua origem. O jogo é fundador da cultura humana, pois todas as características fundamentais do jogo estão antes nos animais. Basta observar, diz ele, dois cachorros brincando. “Parecem que se convidam mutuamente com uma espécie de atitudes e gestos cerimoniosos. Cumprem com a regra de que não podem morder a orelha do companheiro, pelo menos com força. (…) e o mais importante, parecem estar tendo muito prazer com tudo isso.” Portanto, a cultura é um espelho das características do jogo, em todas as suas frentes: o direito, a guerra, o conhecimento, a poesia. Isso nos faz pensar que não podemos desvincular as funções sociais da cultura e tratá-las como ações separadas desta: um mundo, o nosso; o outro, dos necessitados, miseráveis. Ambos somos efeitos culturais de um jogo. Não é à toa que falamos de ‘jogo político’, ‘jogo financeiro’, jogo de interesses’, enfim, ‘jogo da vida’. Fora seus argumentos que decorrem no livro, o que interessa aqui é que tenhamos a noção que não somos separados daqueles que acabaram por ficarem desfavorecidos no ‘jogo da vida’. E se não somos separados, nossas ações, sejam em programas sociais, seja em voluntariado em ações isoladas, seja dando esmola ou colocando um cobertor em cima de quem tem frio, não são ações de altruísmo, mas ações de responsabilidade por quem vive na mesma cultura. Dar leite ao filho que está com fome, estender a mão a um familiar que necessitada de ajuda, trocar a fralda de um velho pai não são ações altruístas pelo fato de que são de responsabilidade de quem está no mesmo nível de afetividade e cultural. Ajudar é fazer algo a quem não seria de nossa alçada, de nossa responsabilidade. Agir com quem está ligado a nós por laços afetivos ou sociais de mesmo nascedouro é obrigação. Quando uma criança ou jovem arruma seu próprio quarto ou lava sua própria louça é passível de elogio, mas não de recompensa. Fazer sua própria obrigação é minimamente louvável, mas não um ato de abnegação.
O que faz você por aquele que vive na mesma cultura que você, embora em outro nível? O que faz você para estancar, prevenir ou ajustar esses desajustes? O problema de quem paga imposto no Brasil é que achando que o governo arrebata uma quantia enorme de dinheiro é dele a obrigação social para tudo: hospital, educação, segurança, assistencialismo ou assistência social. E na sua rua? E na sua porta? E no seu bairro? O que pertence a você, em termos de responsabilidade, é só o que está da porta de entrada de sua casa para dentro? As pessoas as quais é responsável são apenas seus laços consangüíneos? Ok, cada um escolhe seu raio de ação e preocupação. Mas se não faz, não reclame. Quando ler uma página de jornal ou ouvir as notícias, não pense que está em outra dimensão. Como aquele que saiu da caverna de Platão e viu o mundo real acima de seu buraco e nunca mais conseguiu voltar para o lugar escuro, úmido e sem luz que estava, o dia em que a consciência social for um pouco mais além do que a sacada de seu apartamento ou a cerca (elétrica) de sua casa, ela tem grandes chances de nunca mais voltar a encolher.